18ª lição — continuação

Voltando ao texto da lição anterior


Atentemos nas frases:


1.Proca, rex Albae Longae, duos filios, Numitorem et Amulium, habebat.


2. Post regis mortem, Numitor regnum obtinere debebat.


 


VAMOS ANALISAR AS FORMAS VERBAIS:  habebatdebebat



  1. São dois verbos de tema em – e : habere “ter” e debere “dever”

  2. O tema [encontra-se tirando a terminação do infinitivo ]: habe-  e  debe

  3. Vejamos a composição destas formas verbais:


habe -  [tema]+  - ba – [característica do pretérito imperfeito do modo indicativo] +  - t [desinência da 3ª pessoa do singular]


—  tema + característica + desinência


 


Trata-se, então, de duas formas de pretérito imperfeito: tinha, devia


 


       —  Fácil se torna, assim, conjugar qualquer verbo no pretérito imperfeito do indicativo:


VERBO HABERE


 


habebam : eu tinha


habebas : tu tinhas


habebat : ele/ela tinha


habebamus : nós tínhamos


habebatis : vós tínheis


habebant : eles/elas tinham


 


VERBO  AMARE — tema em - a:


 


amabam


amabas


amabat


amabamus


amabatis


amabant


 


Nota: já tínhamos falado das desinências pessoais, quando conjugámos o presente do indicativo; a diferença, aqui, está apenas na 1ª pessoa do singular — nos tempos secundários, e o imperfeito é um tempo secundário, a desinência é  - m.


 


Outras frases:


—   Augustus in Italia habitabat.


—   Discipuli amabant linguam latinam discere.


—   Magister discipulum interrogabat et discipulus respondebat.


—   Nos ad aquam apropinquabamus et lupam uidebamus.


 


Comentários

  1. O préterito imperfeito latino tem o mesmo uso do português? Ou há diferenças?
    O -ba- latino é a causa da existência do -va- lusitano?
    E notei que, numa comparação latim-português, ocorreu a queda do -t e -m(amabam-amava; amabat-amava), mas não o -s(amabas-amavas), saberias explicar-me o porquê?
    Desculpe-me pelas perguntas difíceis, porém há alguma explicação filológica para a transformação do amabatis para amáveis, o batis pra veis?

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    1. Respondendo às suas perguntas:
      — Sim, o pretérito imperfeito tem o mesmo valor em latim e em português: refere-se a uma acção em realização no passado, ou contemporânea de outra acção já passada (diferente do pretérito perfeito que se refere a uma acção momentânea passada); Ex: eu estudei latim há anos / eu tinha boas notas, quando estudava latim ;
      — a característica - ba- vem dar em português - va- ; é muito frequente esta evolução de b para v , na passagem do latim ao português; é um fenómeno que está relacionado, talvez, com a pronúncia do latim imperial (diferente do latim clássico), aquele que foi introduzido aqui na península, e com os falares locais; no entanto, no galaico-português já se nota a distinção dos dois fonemas, b e v eram distintos, mas há ainda alguma hesitação entre b e v — aparece, por exemplo, baron e varon ( é ver como ainda n'Os Lusíadas se escreve "As armas e os barões assinalados" — ora estes "barões" são os "varões", os homens que se destacaram;
      — quanto às desinências pessoais, são evoluções fonéticas que se verificam noutros tipos de palavras: a consoante dental -t-, em posição final, sem apoio vocálico, acaba por desaparecer (aférese: queda de um som no final da palavra); o mesmo acontece à nasal -m que começou por nasalar a vogal anterior;
      — a sibilante - s, tendo uma pronúncia mais acentuada, mais forte, mantém-se;
      — de amabatis para amáveis — para além da passagem do b a v ; temos a sequência — amabatis > amabades > amavaes > amáveis ; a sonorização da dental intervocálica (fenómeno muito frequente — veja-se lupum > lobo ); depois a dental intervocálica sofre uma queda (síncope); por fim, o ditongo ae / ai passa a ei (como em primarium > primairo > primeiro )

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    2. Claro, respondeu tudo e ainda bem detalhado, parabéns!
      E você saberia de algum manual que discuta essas transformações fonéticas da passagem do latim ao português?
      Essa pergunta faz-me pensar que: se o português é o latim vulgar deturpado, qual o porquê de estudar tais alterações pelo Latim Clássico?

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    3. As questões de evolução fonética do latim ao português podem ser estudadas em qualquer boa gramática da língua portuguesa, onde há sempre um capítulo "do latim ao português" ou "origens dos verbos portugueses" — nas gramáticas mais antigas, as tradicionais, e não nas modernas gramáticas que só querem aplicar as modernas teorias linguísticas.
      As línguas românicas têm a sua origem no latim oral, o latim falado pelos romanos que se espalharam pelo império: militares, funcionários vários, comerciantes, etc. ; o latim vulgar, o latim da oralidade, não era igual ao latim escrito, tinha as suas diferenças, tal como acontece com o português, mas essencialmente ao nível da sintaxe. O que leva uma língua a evoluir é exactamente o uso, e é a oralidade que vai deturpando as formas, que na escrita resistem mais tempo. Por isso se vai dando a transformação. Mas temos de considerar também o léxico mais erudito, diferente, portanto, e que está na origem de muitos vocábulos da língua portuguesa e de outras línguas românicas. Veja, por exemplo, que designamos o animal "cavalo", vindo de "caballus" (termo do latim vulgar), mas temos depois os vocábulos eruditos como: equestre, equino , equídeo, derivados de "equus"(=cavalo).
      Quando estudamos as alterações do latim ao português temos de nos basear nos textos escritos, nos vocábulos que conhecemos dos autores latinos; observando os textos escritos em língua portuguesa, desde os mais antigos, o chamado "romance", o galaico-português, vemos como a língua foi evoluindo — os estudos filológicos fazem-se assim, por confronto de textos de várias épocas; os textos poéticos (como a poesia trovadoresca galego-portuguesa) são importantes para nos darem uma ideia da pronúncia, através da rima; depois, no século XVI apareceram os gramáticos que procuram as referências etimológicas e uma estabilização ortográfica.
      Se quiser ler um pouco sobre a língua portuguesa tem um livrinho muito simples, já antigo, mas sempre útil — Paul Teyssier, História da Língua Portuguesa, já de 1980.

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    4. O que difere o estudo filológico do linguístico? O filológico é somente através dos textos e o linguístico é oral e escrito?

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    5. FILOLOGIA E LINGUÍSTICA
      Uma definição
      “A palavra filologia designa, actualmente, o conjunto dos estudos necessários para se adquirir o conhecimento literário de uma língua: gramática, prosódia, paleografia, etc. Neste sentido, “filologia” contrapõe-se a “linguística”. O filólogo limita-se a registar os factos, o linguista compara-os e procura as leis de concordância e de desenvolvimento. “ in Lello Universal, Dicionário Enciclopédico

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    6. Desculpe-me, mas não entendi a diferença entre as gramáticas tradicionais e as gramáticas mais modernas? O que seriam as teorias linguísticas? elas não aceitam o latim?

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    7. Quando falei de "gramáticas tradicionais" e de "gramáticas mais modernas" quis referir-me às novas gramáticas do português, que, de acordo com novas teorias de estudos linguísticos, fazem diferentes análises de frase, diferentes, em alguns casos, classificações de palavras, e que, portanto, se distinguem das gramáticas tradicionais em que a análise linguística está relacionada com a gramática latina. Não quis dizer que as modernas teorias linguísticas não aceitam o latim, não é esse o caso, não podem negá-lo. O que acontece é que as modernas gramáticas do português não dedicam, na sua maioria, um capítulo à origem latina da língua portuguesa e, portanto, no caso de que falava atrás, não falam de evolução fonética do latim ao português nem da origem dos verbos. Apenas isso. Por isso é que disse que nas gramáticas mais antigas há sempre um capítulo com essa matéria. Foi simplesmente para indicar um livro de simples acesso onde poderiam estudar essas matérias.

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    8. Muito obrigada. Na minha cabeça, ocorreu uma confusão, mas já a esclareceste. Obrigada novamente.

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  2. Que aconteceu com a sílaba acentuada dos verbos que no latim culto se conjugabam com nos e vos? Que vai acontecer com essas conjugações em latim vulgar e em português?

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