1ª Lição — Documentum primum

Na página inicial, saudámos o visitante, cada um, individualmente, ou todos, omnes:


 


Salue — saudação a uma só pessoa — corresponde a um "bom dia", "viva"; Saluete — dirige-se a várias pessoas ao mesmo tempo.


 


É uma forma de saudação, mas, na realidade, são formas verbais. Trata-se do imperativo do verbo que significa "estar de boa saúde", "estar bem", sendo salue a 2ª pessoa do singular e saluete a 2ª pessoa do plural.


 


Pode também aparecer com a grafia salve e salvete.


 


Porquê estas duas grafias?


 


No latim clássico não existia a letra v — mas sim a semi-vogal u, que podia ter valor vocálico ou valor consonântico (quando maiúscula tem a forma V, que vemos nas inscrições), só mais tarde se fez a distinção gráfica entre as duas situações.


 


É esta forma — Salve — que, no catolicismo,  temos na oração à Virgem, Salve Rainha.


 


— Com o mesmo valor, saudando aquele que chega, a forma aue / ave,  que todos conhecem da saudação ao imperador "AVE CAESAR!"


 


— Também na oração católica temos a  Ave Maria, a saudação à Virgem.


— Na saudação popular, a cair em desuso, temos a expressão "Deus te salve!"


 


Discamus linguam latinam : estudemos a língua latina.

Comentários

  1. Quando sabemos que o "u/v" tem valor vocálico ou valor consonântico?

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    1. Sabemos através da colocação, da formação de sílaba. Por exemplo: uita — aqui o u inicia a sílaba ui- , vemos que tem valor consonântico, vitam; mas em autem , a sílaba é au, forma o ditongo, logo, tem valor vocálico

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    2. A existência de sons consonânticos e vocálicos está presente só na pronúncia clássica? Ou também está presente nas outros?
      Vejo muitos "doutores", ao pronunciar "corpus iuris civilis", lê-lo como "iuris" ao invés de "juris". Isto é causado pela falta do conhecimento da pronúncia correta ou pela utilização de outra?

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    3. A pronúncia clássica diz-nos que o i e o u eram semivogais, isto é, podem ter valor vocálico ou valor consonântico. Mais tarde foram introduzidos os símbolos j e v nos casos em que a semivogal tinha valor consonântico. A pronúncia dita tradicional aproxima dos sons da língua portuguesa; no caso de iuris, lerá juris (grafando com j e não com i ) e, no caso de ciuilis, lerá civilis. Portanto quem pronuncia e escreve iuris também devia pronunciar e escrever ciuilis. O que acontece é que as pessoas fazem uma certa mistura de pronúncia, e, por exemplo, é comum ouvir domus iustitiae (grafado com i e assim lido) e não justitiae; penso que se trata de uma questão de uso, mas há alguma incoerência nisso.

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    4. Com licença, acabei de assistir em um vídeo no youtube(https://www.youtube.com/watch?v=B2oXtxj0vEI&src_vid=kyWNpZsRzIQ&feature=iv&annotation_id=annotation_3872428599), que diz que, na pronúncia clássica, o "i" e "u", mesmo com valor consonantal, têm sons vocálicos. Esta correto, e compreendi errado teu texto? Ou é outra variação?

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    5. Não entendeu bem o que eu expliquei. O i e o u são chamadas semivogais exactamente porque têm função vocálica, umas vezes, outras vezes função consonântica. Mas a sua leitura é sempre de i e u (nunca j e v — sinais que as substituíram nos casos em que desempenhavam função consonântica). No latim clássico escrevem-se sempre i e u e assim se lêem. Exemplos : iam ; iustitia . Na pronúncia dita tradicional, escrevem-se : jam e justitia e, por isso, se lêem com esse som.

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    6. Obrigado! Não tinha entendido mesmo. Confundi, ou ignorei a diferença, os termos "função" e "som". Mas agora tudo já está completamente claro.

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  2. Quais são os conteúdos ensinados, normalmente, no décimo ano?

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    1. Seria longo enumerar aqui todo o programa (pode consultá-lo na página do MEC ).
      Quanto às questões de morfologia, abrange toda a flexão nominal, a flexão verbal, sem o modo conjuntivo, e toda a sintaxe relacionada. Tudo isto acompanhado de textos relacionados com temáticas específicas.

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  3. Mas, neste blog, tu estás a seguir o programa que leciona com inclusive os temas específicos(lendo-o, vi que abordaras o Idos de Março, a lendária fundação de Roma e outros mitos) ou estás a construir segundo teu conforto e tua escolha?

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    1. Não estou, propositadamente, a seguir o programa, mas a sequência gramatical tem de ser esta, avançando lentamente; os temas podem ser os mesmos ou não, são de acordo com os textos que tenho ao dispor e, logicamente, aproveito os que se leccionam no 10º ano.

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  4. Obrigado, Isa, pela atenção e pelas respostas rápidas e diretas!!

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  5. Professora, estou com uma indagação:
    Por que se estuda o latim clássico se o português vem do vulgar? Não deveria estudar o popular mesmo para melhorar o conhecimento do idioma nacional?

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    1. As línguas românicas derivam, na verdade, do latim vulgar, do latim falado por todos aqueles que dominavam o Império: chegavam às regiões conquistadas os soldados, os mercadores e, também, homens cultos. Foi esse latim que o povo começou a falar e dele derivaram as línguas novilatinas. A diferença em relação ao latim erudito estava, essencialmente, em determinados vocábulos e na simplicidade das construções sintácticas. Mas como estudar esse latim falado? Ficou registado apenas nos diálogos das obras dramáticas ou em inscrições e grafiti... muitos se podem encontrar nas zonas arqueológicas
      Mas latim que mais chegou até nós é o latim erudito, o dos escritores, são as obras literárias. É esse que estudamos, para conhecer a sua obra, para ver como eles influenciaram a nossa língua e a nossa literatura. É a língua culta, a língua de cultura que foi durante séculos a língua comum da Europa culta. A função do inglês do nosso tempo, como língua internacional nos palcos de todo o mundo, foi noutros tempos desempenhada pelo latim.

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  6. Obrigada!
    Desculpe-me pela ignorância, mas o latim vulgar e clássico, num passado distante, já foram em algum momento a mesma língua?

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    1. No latim, como noutras línguas, há diferenças entre a língua culta, a dos escritores, e a língua falada, o falar do povo, do dia-a-dia. Quando falamos em latim clássico estamos a falar da língua usada no tempo de Cícero, de Virgílio, de Horácio, dos grandes escritores dos séculos II e I antes de Cristo e da primeira metade do século I depois de Cristo. É o latim que chegou até nós nas obras dos escritores dessa época— foi o período clássico da literatura latina, a época de ouro. Depois a língua sofreu alguma evolução e, por isso, podemos falar num latim imperial, em que houve uma certa decadência, em termos literários.
      O latim vulgar era o latim falado pelas classes pouco cultas. Chegou até nós sobretudo através de inscrições, de gratfiti e de alguns textos literários que procuravam transcrever o falar do povo. Este latim vulgar (do qual derivaram as línguas românicas) caracteriza-se pela pronúncia incorrecta das palavras que leva depois a uma grafia incorrecta (que acaba por se impor nessas classes), dar às palavras significados que o latim culto distinguia com vocábulos diversos, esquecer as declinações e usar mais as preposições, uma sintaxe muito simples e uma ordem das palavras mais "natural".

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    2. Obrigada de novo!
      Podes indicar-me alguma leitura que fale mais sobre essa evolução até o português?

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    3. Sou eu de novo. Também gostaria de saber se há mais diferenças entre os latins clássico e vulgar do que o português literário e o popular?
      Quando digo literário, não só Camões, mas em relação a Eça, Almeida Garret, Castelo Branco.

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