Nouum iter 8
Na sequência do post anterior, voltemos à República de Ragusa, onde, no século XIV, se estabeleceram as regras de quarentena
Interessante, também, o Lema da República de Ragusa:
Non bene pro toto libertas venditur auro
Vemos aqui a defesa de um valor universal — a LIBERDADE
O lema diz que “ a liberdade não se vende”
a.
Iniciada pela negativa non , a frase tem como sujeito libertas
libertas — sujeito de uenditur /venditur
libertas, libertatis (nome da 3ª declinação, tema em consoante – dental – t ) – veja-se o post anterior sobre a formação do nominativo sigmático
uenditur — forma passiva do verbo: uendo, uendis, uendere, uendidi, uenditum “vender”
libertas non uenditur : a liberdade não é vendida / não se vende
recordar como se enuncia um verbo — dizendo: a 1ª pessoa do singular do presente do indicativo (uendo), a 2ª pessoa do singular do mesmo presente do indicativo (uendis), o infinitivo presente (uendere), a 1ª pessoa do singular do pretérito perfeito (uendidi ), o supino (uenditum)
Este verbo é de tema em consoante — olhando para o infinitivo uendere , a vogal e da penúltima sílaba – de – é uma vogal breve, é uma vogal de ligação, logo, o tema do verbo é uend-
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Vejamos a conjugação do presente do indicativo na voz passiva:
uendor
uenderis entre o tema e a desinência pessoal, quando esta começa por consoante, introduz-se
uenditur uma vogal de ligação : uend – i - tur
uendimur
uendimini
uenduntur
b.
pro toto auro : por todo o ouro/em troca de todo o ouro
a preposição pro rege um ablativo (toto auro) e tem o sentido de “em troca de, por, em favor de”
o adjectivo totus, tota, totum significa “todo”, “inteiro” (indica a totalidade, a duração total)
sentido diferente de omnis, omne “todo”
Logo, toto auro indica todo o ouro que existe, a totalidade do ouro, todo o ouro do mundo
aurum, auri (neutro, 2ª declinação): ouro
[ símbolo químico do ouro : au ]
Veja-se a diferença:
omnes noctes : todas as noites
totae noctes : noites inteiras
Tradução:
— Felizmente a liberdade não se vende por todo o ouro do mundo
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Esta mesma expressão é citada no Prólogo que Miguel Cervantes dirige ao “Desocupado Leitor” da sua obra D. Quixote e vem a propósito das citações que sempre devem ser feitas:
“Enquanto ao negócio de citar nas margens do livro os nomes dos autores, dos quais vos aproveitardes para inserirdes na vossa história os seus ditos e sentenças, não tendes mais que arranjar-vos de maneira que venham a ponto algumas dessas sentenças, as quais vós saibais de memória, ou pelo menos que vos dê o procurá-las muito pouco trabalho, como será, tratando por exemplo de liberdade e escravidão, citar a seguinte: Non bene pro toto libertas venditur auro, ...”
Do latim ao português:
De libertas deriva a palavra portuguesa “liberdade”. Vejamos como se deu a evolução:
A grande maioria das palavras portuguesas deriva do acusativo latino, por isso se chama a este caso o caso etimológico.
Assim:
acusativo libertatem > libertate > liberdade
Que fenómenos fonéticos se deram aqui?
1º a queda do -m final de acusativo, fenómeno que sempre acontece, apócope (queda de um som no fim da palavra)
2º a passagem da consoante dental surda intervocálica – t – à dental sonora – d - , fenómeno a que se dá o nome se sonorização (as consoantes oclusivas surdas intervocálicas passam a sonoras)
O mesmo se dá na passagem de:
caritatem ao português caridade
lupum ao português lobo
lacum a lago
totum a todo
Bom dia! Por que há "e" em uenderis enquanto, nas outras pessoas (salvo antes de -n), a vogal de ligação é "i"? Existe uma explicação simples ou somente por complicadas razões históricas? Desde já, agradeço
ResponderEliminarTrata-se do que poderemos chamar um fenómeno de "dissimilação" pelo facto de, na 2ª pessoa do singular, a terminação -ris já ter um i; então a tendência das línguas é desfazer essa sequência de 2 vogais iguais.
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