29ª lição — documentum uigesimum nonum
Hoje vamos falar de INTELIGÊNCIA
O vocábulo inteligência vem do latim intellegentia, que significa “acção de discernir”, “faculdade de compreender”, portanto, “inteligência”, “compreensão”, “entendimento”.
A evolução do e para i da sílaba –li-, vem de um processo de dissimilação, que já aparecia em latim.
— intellegentia, intellegentiae — substantivo de tema em – a, 1ª declinação, relacionado com o particípio presente do verbo intellegere, que significa “perceber”, “compreender”;
— enunciado do verbo:
intelellego, intellegis, intellegere, intellexi, intellectum
O que é o particípio presente e como se forma?
O particípio presente é uma forma verbal, nominal — quanto à forma é um adjectivo da 2ª classe:
tem um nominativo igual para todos os géneros e um genitivo terminado em – is:
intellegens, intellegentis
Formação:
[ tema: intelleg- + vogal de ligação e + sufixo – nt + desinências; para formar o nominativo acrescentou-se um – s ao tema, e o –t foi assimilado: intelleg-e-nt-s > intellegens ; genitivo: intelleg-e-nt-is > intellegentis]
Tradução: percebendo, que percebe, que percebia
Exemplo: homo intellegens: o homem que percebia
Marcus, intellegens ... : Marco, percebendo que....
Logo, o intellegens é “aquele que compreende /que conhece”, o “conhecedor”.
Daqui deriva a palavra portuguesa inteligente
do acusativo intellegentem > inteligente
Por isso, o INTELIGENTE é, literalmente, “aquele que percebe, que compreende, que sabe discernir”.
— Este verbo intellegere é formado de inter + legere
lego, legis, legere, legi, lectum : juntar, reunir; colher, escolher; ler
inter-legere > intellegere — o r foi assimilado pelo l, daí a consoante dobrada.
Portanto inter-legere quer dizer “escolher entre” (entre várias opções escolher uma...);
Então o inteligente é “aquele que sabe escolher, que sabe discernir, que sabe colher o conhecimento“
A INTELIGÊNCIA é isso, é essa capacidade de escolha, de discernimento, de colher o saber, o conhecimento.
Mas também legere : LER , porque ler é escolher, é juntar as letras, perceber.
legere > leer > ler : a consoante gutural (g) entre vogais caiu; o e final deixou de se ouvir; os dois e fundiram-se num só (crase)
e - legere > eligere : tirar de, separar; eleger
Então ELEGER é separar/escolher um de entre vários, escolher com discernimento.
Questões gramaticais
No enunciado dos verbos apareceu uma nova forma: lectum , intellectum
Trata-se de uma forma verbal nominal, o SUPINO; é uma forma de acusativo neutro, que indica o fim
lectum: para ler
intellectum: para compreender
O supino não tem correspondência em português.
Fica assim completo o enunciado de um verbo latino:
1ª pessoa do singular do presente do indicativo: lego
2ª pessoa do singular do presente do indicativo: legis
infinitivo presente: legere
1ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo: legi
supino: lectum
Outros exemplos:
amo, amas, amare, amaui, amatum : amar, gostar de
doceo, doces, docere, docui, doctum : ensinar
dico, dicis, dicere, dixi, dictum : dizer
facio, facis, facere, feci, factum : fazer
audio, audis, audire, audiui, auditum : ouvir
A partir do supino forma-se o PARTICÍPIO PASSADO
O particípio passado é uma forma nominal — um adjectivo da primeira classe:
Do supino lectum: lectus , lecta, lectum : lido
De amatum: amatus, amata, amatum: amado
De dictum : dictus, dicta, dictum : dito
De factum : factus, facta, factum : feito
De auditum : auditus, audita, auditum : ouvido
Do latim ao português:
Da etimologia de intellectum temos em português:
intelecto, intelectual
De electum temos : eleito, eleitor, eleitoral, eleitorado [ com a vocalização da consoante c ]
Desculpe, professora, mas não entendi que é particípio o presente, nem o passado(a função, a formação, quando os utiliza, e,finalmente, quero entender: que é uma forma verbal nominal?)? E, em relação ao supino, que acusativo neutro?
ResponderEliminarE quais são as heranças dos particípios e do supino no português??
Ora, então aí vão as respostas a todas as suas perguntas.
EliminarGRAMÁTICA PORTUGUESA:
— Uma forma nominal, na flexão verbal, é aquela que se comporta como um NOME (como um substantivo ou como um adjectivo), quer dizer, não se conjuga como as outras formas verbais (com as variantes pessoais, eu/tu/ele..., temporais e modais). Assim:
- Infinitivo impessoal: estudar,saber, andar,ouvir, etc. — convém ESTUDAR; gosto DE OUVIR (veja como aqui o infinitivo vem acompanhado de uma preposição)
- o particípio passado: ouvido, sabido, estudado, acabado; o particípio passado pode ser usado como um adjectivo: achei-o desanimado (aqui DESANIMADO, particípio passado do verbo "desanimar", é um adjectivo que qualifica o complemento O, em achei-O)
— o particípio passado usa-se, por exemplo, para formar a VOZ PASSIVA — Exemplo: ontem li um livro (voz activa); o livro foi lido por mim (voz passiva) — veja como o pretérito perfeito passivo — foi lido — é formado com o pretérito perfeito do verbo SER (como auxiliar) e o particípio passado do verbo LER — consulte qualquer gramática de língua portuguesa.
GRAMÁTICA LATINA:
Tal como a gramática portuguesa.
Mas o particípio presente latino não tem correspondência directa em português. Subsiste apenas em alguns substantivos
Exemplo: particípio presente latino — amans, amantis: "amando"; "que ama/ que amava" — português: (vindo do acusativo amantem): amante, tal como, estudante, lente, ouvinte
O particípio passado latino — formado a partir do supino — dá o particípio passado português: latim: amatus/amata — português: amado/amada; latim: scriptus/scripta — português: escrito/escrita
O SUPINO, como disse, não tem correspondência em português; é uma forma nominal que se usa apenas no acusativo neutro — amatum "para amar" (como os substantivos da 2ª declinação — bellum, belli "guerra", oppidum, oppidi "cidade fortificada") e, menos usado, um ablativo (de sentido passivo) amatu "para ser amado"